Saturday, March 17, 2012

Os mortos contam historias

Estou lendo um livro escrito por um antropologo forense americano chamado William R. Maples. O titulo do livro e' "Dead Men Do Tell Tales", mais ou menos traduzido como "Os mortos realmente contam historias". Vamos discutir esse livro assim que voltarmos `a nossa aula de ingles na faculdade. Esse livro tem me proporcionado emocoes variadas, e de uma forma mudado minha perspectiva sobre a vida... e tambem a morte.
Sendo um livro nao ficticio, trata-se de uma narrativa baseada em fatos reais, experiencias de um renomado antropologo forense, Dr. William Maples, em seu trabalho e, digamos, arte de estudar ossadas humanas e tentar descobrir a causa mortis. O livro comeca narrando os primordios da origem do autor, do interesse despertado por essa ciencia, e varias experiencias em lugares variados, entre eles o Quenia. O autor passou diversos anos no Quenia estudando os babuinos, e relata acontecimentos engracados e curiosos desse lugar. Apos alguns anos de experiencia, ele decide voltar para os EUA e retomar seus estudos na area da antropologia forense e conseguir um espaco na universidade como professor e tambem pesquisador.
Esse livro nao e' para qualquer um. Digo isso porque o autor nao mede esforcos em descrever com detalhes minuciosos certas situacoes e condicoes em que se encontram os mortos. Cada capitulo trata de um aspecto diferente sobre a morte, e realmente nao recomendo para os mais fracos de coracao (e estomago). Tendo estudado muitos anos de ingles e literatura, o autor manipula a lingua com tamanha destreza e realismo que o leitor se sente parte de cada situacao narrada. Lembro-me que nossa professora de ingles avisou: nao leiam esse livro enquanto comem ou apos comer. Ela estava certa.
Cada um esta' responsavel por ler e apresentar um capitulo do livro. Eu escolhi o capitulo sobre suicidio, porque achei mais "suave". Isso nao e' piada, e' serio. Os outros capitulos sao muito piores em termos de peculiaridades, descricoes minuciosas do estado em que os cadaveres se encontram, portanto achei menos chocante esse capitulo sobre suicidio. Os outros capitulos tratam de assassinato, violencia/abuso de criancas, desmembramentos, e outras coisas nao menos desagradaveis. No entanto, decidi ler o livro inteiro, e nao so' o meu capitulo, porque eu quero ter uma ideia geral do livro. Quem esta' na chuva e' para se molhar.
Pretendo terminar a leitura do livro hoje. Creio que me faltam umas 70 paginas. Sendo um livro denso e bastante chocante, por vezes tive que parar para espairecer, respirar fundo e seguir adiante. Eu nao gosto do assunto morte, e confesso: tenho hojeriza a ela. Eu me sinto muito tocada com cada vitima que o autor relata, o estado em que se encontra, e fico pensando se essas pessoas sofreram muito antes de morrer, ou se deixaram familiares ou amigos queridos sofrendo com sua morte. Ou quica' ninguem sofreu, nem tomou conhecimento dessa pobre alma.
Como falei no inicio desse texto, o autor se concentra no estudo das ossadas humanas. Ele relata casos que nunca haviam sido solucionados, por falta da tecnologia e da existencia da propria ciencia da antrolopologia forense muitos anos atras. Antigamente nao existia esse ramo cientifico, e os instrumentos eram precarios. Os anatomistas estudavam os cadaveres e ossos, mas com bastante limitacao devido `a essa falta de tecnologia. Hoje em dia pode-se descobrir a causa, a data, o jeito, o motivo e muitas outras coisas atraves da analise de pedacinhos minusculos de ossos. Alguns dos casos relatados no livro eram praticamente impossiveis de se solucionar, porem o Dr. Maples conseguiu descobrir todos os detalhes a respeito. Impressionante como a ciencia tem evoluido, para o bem de nossa sociedade.
`A medida que vou avancando em minha leitura, vou aprendendo a engolir a humanidade e suas crueldades um pouco mais. Nao aceito qualquer tipo de maldade, mas vou me "desensibilizando" um pouco das situacoes chocantes. Vou aprendendo a dar valor `a vida, o respeito ao proximo, e sobretudo apreciando o valor que cada um de nos tem nesse mundo. Fico com pena daqueles que sofrem mortes violentas, absurdas, e que somem do mapa, e de suas familias que ficam sem resposta e sem uma conclusao dessa cruel situacao.
Agora conheco um pouco mais sobre essa especialidade da antropologia forense. Nao sabia que tantas coisas ficam "gravadas" nos ossos. As pessoas `as vezes pensam que algo nunca sera' descoberto, mas os ossos contam marcas que nao enganam. Os tecidos, musculos, orgaos se desfazem com o tempo, mas os ossos demoram centenas de anos para se decomporem. Eles realmente contam historias de seus mortos. E como contam.

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